terça-feira, 22 de janeiro de 2013

THORN AND STOM




                                                            PARTE III



      E queria mesmo eu até conter-me numa onda que se arremessa ao rochedo. E esparramar-me e voltar ao mar bravio. Porém sempre me constitui em oceano caudaloso. E engolfei assim toda a vastidão das águas. Desde as primeiras, as mais profundas. 
      Pelas artérias e veias correu-me sempre o sangue de todas as raças, e nunca fui guardião de mistérios, embora em mistério sempre envolto. Reforçada em mim sempre esteve a fora, a cadência do pulsar da vida.
     O simples fato de existir lacrava em meu peito a possibilidade da ausência de um ressurgir contínuo, de alguma novidade de mim. Havia a ausência daquilo que uma possível morte pudesse consumar.
     Numa noite em que me debrucei das nuvens, fiz então um favor a mim mesmo, e cedi lugar às legiões curiosas, ávidas de provar o doce mel das mais aromáticas espécies de frutas. E isso sempre, costumeiramente, com o propósito de poder partilhar a outros minha real essência, pois todo ser, por mais enigmático que fosse em sua complexidade, logo eu deduzia seu conteúdo, e lançando minha teia, para junto de mim o trazia sem arrebatar sua nada de sua essência. O prenúncio de uma possível novidade.
     E era em mim então tudo óbvio. Tudo emanava dedutível desde a origem primeira, até a capacidade de esvair-se existencialmente.
     O pensamento que se desprendia de qualquer ser não escapava a meu poder de subjugá-lo. E se decepava ou punha termo a algo que me  estorvava, logo a energia vital que destruía, se integrava a mim. Estendendo-se por todo universo sem fronteiras.
     No que em realidade se caracterizava minha relação com a vida, com a morte, com o mistério? Eu simplesmente me recusaria a fazer-me óbvio como as partículas de um átomo, as organelas de uma célula, o tecido de um organismo qualquer.
     Antes sempre quis preservado meu caráter complexo, minha capacidade de fazer-me oculto ao pensamento sagaz. Numa somatória de possibilidades, de deduções, de desmistificações racionais, era assim que preservava meu poder.
     Continha em mim reclusa a disputa de qualquer mortal com seu deus. E imortalidade sempre foi atributo meu.
     E o reiniciar incessante de minha expressão de poder, vencia qualquer ousadia entre eu e a fúria de um animal selvagem, de uma formação vegetal, de um minério oculto.
     Um veio de mim na criação estabelecida, articulava-se em ramificação na criação toda. 
     E era eu luz e trevas. O milagre primeiro do qual poderia se extrair benção ou maldição.
     Afirmo pois, desvendo então: a finitude minha implicava somente na possibilidade, na certeza mesmo apocalíptica de mim.




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